Portal G1, 25/02/2010
Sistema de escolha do Enem pode gerar universitários frustrados
Para conseguir a aprovação, aluno escolhe curso menos concorrido. 'Não dá para brincar de fazer faculdade', diz psicóloga
Ana Cássia Maturano
O processo seletivo para a entrada em algumas universidades pelo Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), apesar dos problemas que enfrentou, está caminhando e trazendo esperança a muitos jovens. Eles contam entrar numa faculdade pública para poderem dar prosseguimento aos estudos e se prepararem para exercer uma profissão. A disputa não é fácil pois, como sempre, há mais candidatos que vagas. Porém, em relação ao vestibular, a princípio apresenta uma vantagem: ao verificar que os cursos aos quais se inscreveu têm uma nota de corte alta em relação a sua, o estudante pode, dentro do prazo da inscrição, mudar sua escolha. Isso, segundo internautas do G1, tem feito com que alguns concorrentes mudem não só a opção da instituição que pretendia entrar, mas também a carreira, optando por outra cuja a nota de corte é menor. Não temos dados para comprovar que isso esteja realmente acontecendo. É bem provável que sim. Às vezes, nos vestibulares tradicionais, o aluno, diante da indecisão e da necessidade de entrar em uma faculdade, opta em cada instituição por um curso diferente, que nem sempre apresentam afinidades. Percebe-se que fazer um curso superior antecede a busca por uma profissão: estar na universidade é o que importa.
Ora, estar no ensino superior e se esforçar para ser aprovado no vestibular ou no Enem só faz sentido caso se tenha um projeto profissional. É por isso que as pessoas cursam uma faculdade. Entrar na faculdade a qualquer custo, independente da carreira, pode resultar em problemas futuros, como ser um profissional frustrado que vai fazer outra coisa, ou o abandono do próprio curso. A evasão universitária gira em torno de 22%. Uma pesquisa realizada pela professora Yvette Piha Lehman do Instituto de Psicologia da USP constatou que cerca de metade dos estudantes que abandonam a universidade o fazem por dificuldade em escolher uma carreira, seja por desconhecê-la ou por pressões familiares. O problema não é do sistema do Enem. Ele tenta ser democrático. Porém, dá uma brecha para que os indecisos acabem ocupando uma vaga que não é de seu interesse, podendo futuramente inutilizá-la. E o pior: impedindo que alguém, que tenha um real interesse por aquela vaga, possa ocupá-la.
Satisfação pessoal - Assim, o estudante tem uma questão anterior à entrada em uma faculdade: o da escolha de uma carreira adequada ao seu perfil, o que vai aumentar as chances de ter satisfação pessoal durante a vida. Faz-se necessário que essa questão seja olhada e trabalhada pelas instituições de ensino fundamental e médio, públicas ou privadas. A vida é rápida. Não dá para brincar de fazer faculdade, com o risco de ser infeliz. A escolha de uma profissão conta muito para a realização de uma pessoa. Afinal, o indivíduo passa a maior parte da vida trabalhando. O trabalho pode e deve ser prazeroso. (Ana Cássia Maturano é psicóloga e psicopedagoga)
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